Acessibilidade Ilustração sobre acessibilidade digital da Apple

A Hipocrisia da Acessibilidade: Quando o discurso de inclusão esbarra na realidade

O design tem o poder de mudar o mundo, mas será que estamos usando essa ferramenta para incluir ou para manter privilégios?

Sarah Madeira, autora do artigo Por Sarah Madeira
7 min

O Design como Força Transformadora

O design não é apenas uma ferramenta de embelezamento ou funcionalidade; ele é uma força transformadora, quase geológica, que molda o mundo. Se formos ler sobre a história, sobre como a sociedade se moldou e se molda até hoje, o design vai estar lá. Foi através do design que criamos os símbolos do capitalismo, e é através dele que podemos, quem sabe, reconstruí-lo.

Mas é preciso ter os pés no chão. Utopias à parte, sabemos bem que sozinhos não mudamos o mundo. Afinal, a sociedade é feita para andar em cooperação, para que todos caminhem melhor. No entanto, na prática, não é bem isso que vem acontecendo. Vivemos em um mundo que nos obriga, de forma consciente e muitas vezes inconsciente, a sermos duros como pedra, tanto nos pensamentos quanto nas ações.

E é nesse contexto que surge uma palavra bonita e de grande reflexão: ACESSIBILIDADE.

A Hipocrisia do "Para Todos"

A sociedade nos diz para cuidarmos da natureza: reciclar, utilizar materiais reutilizáveis, adotar energias limpas. Fica a questão: quem pode cuidar da natureza? "TODO MUNDO!", certo? Na teoria, sim. Mas, na prática, isso é acessível?

Se todos nós mudássemos nossa cultura alimentar e virássemos veganos, todo mundo teria condições de manter essa dieta sem faltar nutrientes? O acesso a alimentos variados e suplementos é democrático?

Se todos tivéssemos que trocar os carros a gasolina por veículos elétricos, todo mundo poderia comprar um carro novo ou ter onde carregá-lo?

O discurso de "salvar o planeta" ou "mudar o mundo" frequentemente ignora as barreiras sociais e econômicas. E é exatamente aí que o design entra em cena.

O Design e a Barreira Invisível

A acessibilidade no design é o princípio que deveria garantir que produtos, serviços e ambientes pudessem ser usados pelo maior número possível de pessoas, independentemente de suas capacidades físicas, cognitivas, sensoriais e sociais.

A sociedade "fala" sobre inclusão porque isso se tornou um valor socialmente desejável. Ninguém quer ser visto como preconceituoso ou excludente. No entanto, a prática revela que a acessibilidade verdadeira esbarra em estruturas de poder, dinheiro e privilégio.

A Acessibilidade é tratada como CUSTO, não como Investimento

Quando uma empresa instala uma rampa na entrada, mas ignora a acessibilidade no site e no atendimento, ela está fazendo apenas o mínimo para cumprir a lei e evitar multas. Esse esforço muitas vezes beneficia apenas um tipo de usuário (o cadeirante que chega até a porta), ignorando a maioria das outras deficiências e barreiras sociais.

Além disso, o custo da adaptação é repassado, ou a acessibilidade é oferecida apenas em espaços de elite. Um exemplo clássico disso é o transporte público:

  • Metrôs das áreas nobres são acessíveis, com elevadores e sinalização tátil
  • Ônibus das regiões periféricas (de onde a população mais pobre depende) são velhos, quebram com frequência e não possuem elevadores funcionando

A acessibilidade vira um privilégio geográfico e econômico.

O Capacitismo Estrutural e a Invisibilidade

Outro ponto crítico é o "padrão" de quem projeta. As cidades, os aplicativos e os produtos são geralmente concebidos por pessoas sem deficiência, que não enxergam as barreiras. Para elas, o mundo funciona. Como não vivenciam a dificuldade, a acessibilidade se torna um "extra" e não a base do projeto.

Some-se a isso o fato de que muitas deficiências são invisíveis:

  • Surdez
  • Autismo
  • Doenças crônicas
  • Transtornos cognitivos

Por não serem "percebidas" na multidão, são esquecidas no planejamento. O resultado é que a acessibilidade muitas vezes só contempla o óbvio (como rampas), deixando de lado necessidades cognitivas, sensoriais e intelectuais.

Enquanto a acessibilidade for tratada como favor, diferencial de luxo ou obrigação legal a ser driblada, ela continuará sendo um privilégio de poucos.

O Privilégio de ser Incluído

A verdade é que, enquanto a acessibilidade for tratada como:

  • Um favor (e não um direito)
  • Um diferencial de luxo (e não um padrão)
  • Uma obrigação legal a ser driblada (e não uma oportunidade de inovação)

ela continuará sendo um privilégio de poucos: daqueles que podem pagar por ela ou que moram nos locais onde o poder público é mais eficiente.

O design tem o poder de mudar essa realidade. Mas, para isso, precisa parar de projetar para um "usuário padrão" e começar a projetar para a diversidade real do mundo. Caso contrário, continuaremos vivendo em uma sociedade que adora o discurso da inclusão, mas pratica a exclusão diariamente.

Sarah Madeira

Sobre Sarah Madeira

Acredito que a tecnologia só vale a pena quando é acessível. 😎