A Hipocrisia da Acessibilidade: Quando o discurso de inclusão esbarra na realidade
O design tem o poder de mudar o mundo, mas será que estamos usando essa ferramenta para incluir ou para manter privilégios?
O Design como Força Transformadora
O design não é apenas uma ferramenta de embelezamento ou funcionalidade; ele é uma força transformadora, quase geológica, que molda o mundo. Se formos ler sobre a história, sobre como a sociedade se moldou e se molda até hoje, o design vai estar lá. Foi através do design que criamos os símbolos do capitalismo, e é através dele que podemos, quem sabe, reconstruí-lo.
Mas é preciso ter os pés no chão. Utopias à parte, sabemos bem que sozinhos não mudamos o mundo. Afinal, a sociedade é feita para andar em cooperação, para que todos caminhem melhor. No entanto, na prática, não é bem isso que vem acontecendo. Vivemos em um mundo que nos obriga, de forma consciente e muitas vezes inconsciente, a sermos duros como pedra, tanto nos pensamentos quanto nas ações.
E é nesse contexto que surge uma palavra bonita e de grande reflexão: ACESSIBILIDADE.
A Hipocrisia do "Para Todos"
A sociedade nos diz para cuidarmos da natureza: reciclar, utilizar materiais reutilizáveis, adotar energias limpas. Fica a questão: quem pode cuidar da natureza? "TODO MUNDO!", certo? Na teoria, sim. Mas, na prática, isso é acessível?
Se todos nós mudássemos nossa cultura alimentar e virássemos veganos, todo mundo teria condições de manter essa dieta sem faltar nutrientes? O acesso a alimentos variados e suplementos é democrático?
Se todos tivéssemos que trocar os carros a gasolina por veículos elétricos, todo mundo poderia comprar um carro novo ou ter onde carregá-lo?
O discurso de "salvar o planeta" ou "mudar o mundo" frequentemente ignora as barreiras sociais e econômicas. E é exatamente aí que o design entra em cena.
O Design e a Barreira Invisível
A acessibilidade no design é o princípio que deveria garantir que produtos, serviços e ambientes pudessem ser usados pelo maior número possível de pessoas, independentemente de suas capacidades físicas, cognitivas, sensoriais e sociais.
A sociedade "fala" sobre inclusão porque isso se tornou um valor socialmente desejável. Ninguém quer ser visto como preconceituoso ou excludente. No entanto, a prática revela que a acessibilidade verdadeira esbarra em estruturas de poder, dinheiro e privilégio.
A Acessibilidade é tratada como CUSTO, não como Investimento
Quando uma empresa instala uma rampa na entrada, mas ignora a acessibilidade no site e no atendimento, ela está fazendo apenas o mínimo para cumprir a lei e evitar multas. Esse esforço muitas vezes beneficia apenas um tipo de usuário (o cadeirante que chega até a porta), ignorando a maioria das outras deficiências e barreiras sociais.
Além disso, o custo da adaptação é repassado, ou a acessibilidade é oferecida apenas em espaços de elite. Um exemplo clássico disso é o transporte público:
- Metrôs das áreas nobres são acessíveis, com elevadores e sinalização tátil
- Ônibus das regiões periféricas (de onde a população mais pobre depende) são velhos, quebram com frequência e não possuem elevadores funcionando
A acessibilidade vira um privilégio geográfico e econômico.
O Capacitismo Estrutural e a Invisibilidade
Outro ponto crítico é o "padrão" de quem projeta. As cidades, os aplicativos e os produtos são geralmente concebidos por pessoas sem deficiência, que não enxergam as barreiras. Para elas, o mundo funciona. Como não vivenciam a dificuldade, a acessibilidade se torna um "extra" e não a base do projeto.
Some-se a isso o fato de que muitas deficiências são invisíveis:
- Surdez
- Autismo
- Doenças crônicas
- Transtornos cognitivos
Por não serem "percebidas" na multidão, são esquecidas no planejamento. O resultado é que a acessibilidade muitas vezes só contempla o óbvio (como rampas), deixando de lado necessidades cognitivas, sensoriais e intelectuais.
Enquanto a acessibilidade for tratada como favor, diferencial de luxo ou obrigação legal a ser driblada, ela continuará sendo um privilégio de poucos.
O Privilégio de ser Incluído
A verdade é que, enquanto a acessibilidade for tratada como:
- Um favor (e não um direito)
- Um diferencial de luxo (e não um padrão)
- Uma obrigação legal a ser driblada (e não uma oportunidade de inovação)
ela continuará sendo um privilégio de poucos: daqueles que podem pagar por ela ou que moram nos locais onde o poder público é mais eficiente.
O design tem o poder de mudar essa realidade. Mas, para isso, precisa parar de projetar para um "usuário padrão" e começar a projetar para a diversidade real do mundo. Caso contrário, continuaremos vivendo em uma sociedade que adora o discurso da inclusão, mas pratica a exclusão diariamente.
Sobre Sarah Madeira
Acredito que a tecnologia só vale a pena quando é acessível. 😎